Perfil: Marly e a Vila dos Pescadores

Dona Marly Vicente da Silva é filha de Benedita Vicente da Silva, que colocou no mundo mais 17 vidas além da pequena Marly, fora os filhos agregados ao longo dos anos. Em um esforço de memória, dona Marly leva um minuto e cinquenta e três segundos para lembrar os nomes dos irmãos e irmãs, vivos e falecidos. Ela nasceu em Recife, Pernambuco, há 64 anos.

Texto e fotos:
Cauê Colodro.

“Eu fui empoderada muito cedo, minha base foi muito forte. Não segui à risca tudo que meu pai me ensinou, mas o que ele me ensinou se encaixou certinho”, diz, enquanto bate com a lateral da palma da mão na mesa de dona Helena, na casa em frente ao Portinho da Vila dos Pescadores. Nos momentos de dificuldade, dona Marly diz que busca suas forças na memória. “Se meu pai tivesse aqui, o que ele ia dizer? Porque tenho certeza que ia dar certo”.

Benício Vicente da Silva, morto aos 68 anos por uma bronquite asmática contraída no constante contato com a pólvora de uma fábrica de fósforos da Fiat Lux, em Recife, era membro do Partido Comunista Brasileiro, e levava uma vida política sigilosa longe da família. “Uma das coisas que ele me falava era assim: ‘minha filha você é muito danada, o mundo não está preparado para uma mulher como você, você devia ter nascido homem, ousada e atrevida’”. “Você vai sofrer muito”, dizia o marido da evangélica Benedita, hoje com 92 anos.

Além dos alertas de seu Benício, dona Marly aprendeu com o pai a capacidade de ter por perto aqueles com “mais personalidade e caráter”. Em uma analogia com A Origem das Espécies, de Charles Darwin, Sr. Benício orientava que o equilíbrio nascia da junção dos diferentes. “Tem que ser diferente Marly: se você gostar de vinho, ele tem que gostar de água; se você gostar do Sol, ele tem que gostar da Lua. Ai vai ter harmonia. Equilíbrio”. Ele também evocava a história de Salomão para dizer que uma mãe abre mão do filho por amor.

Marly tem certeza de que Sr. Benício esteve presente nos momentos mais cruciais de seus 64 anos, e continua ali, ao seu lado, até quando a filha se emociona ao lembrar da presença física do pai. “Ele era ateu, mas no fim admitiu que existia um poder superior. A gente se entendia com duas palavras”. No primeiro casamento de Marly, Sr. Benício continuava seus alertas, agora direcionados ao genro. “Daqui onde eu estou até aí são só quatro horas, não maltratada minha filha!”. Certa vez, após uma briga de casal, seu ex-marido, que ela prefere não mencionar pelo nome, sonhou com o sogro dando-lhe um murro na face. Acordou com dor no nariz.

Dona Marly Vicente. Foto: Cauê Colodro.

Antes de se casar, ela havia desembarcado em São Paulo, em meados de 1973, aos 18 anos de idade para dividir um quarto com sua amiga, Mara, no Bom Retiro, após rápida passagem na casa de familiares no Rio de Janeiro. Veio impulsionada pela curiosidade, a procura por trabalho. Foi seletiva na escolha do emprego, deu preferência para patroas que aceitassem uma funcionária estudante. “Eu quero estudar. Se eu puder estudar eu fico”, dizia. “A mulher me entrevistou e eu entrevistei ela; combinamos que metade do salário ia para os estudos”. Divorciada e mãe de dois filhos, a contadora Clara, “de sobrenome judeu difícil de se falar”, levava trabalho para casa e recebia ajuda de Marly, que se dividia entre o trabalho doméstico e o supletivo dos estudos que pararam quando vivia em Recife.

Foi neste período que o irmão de Marly veio para Rio de Janeiro servir ao Exército. Josué se mudou para Cubatão, cidade emancipada em 1949 onde se concentra o maior polo industrial da América Latina. Arrumou emprego na antiga Companhia Siderúrgica Paulista, a Cosipa, e morava no conjunto habitacional oferecida pela empresa, local conhecido como Vila Parisi.

Josué convidou a irmã para conhecer o local, e buscar oportunidade nas diversas vagas de emprego das indústrias que se instalavam na Serra do Mar. Foi quando ela conheceu o ex-marido, casou-se e teve seu primeiro filho, Anderson, hoje com 41 anos.

“Eu não gostava da Vila Parisi, tinha muita fumaça, ambiente esquisito”, lembra Marly. A Vila Parisi ficou mundialmente conhecida quando Cubatão foi apontada pela ONU como a cidade com a pior qualidade do ar atmosférico do mundo, em 1981. Chuva ácida, perda da flora nativa, contaminação por elementos químicos pesados, doenças pulmonares e crianças nascendo com anencefalia eram alguns dos efeitos devastadores da poluição.

Anderson, filho de Marly, não demorou muito para sentir os efeitos da péssima condição atmosférica do lugar. “Ele sofria muito com bronquite, passava mau de respirar aquele ar”. Um dia, viajando rumo a Santos, Marly conheceu o Jardim Casqueiro, bairro cubatense às margens da Via Anchieta e da estrada de ferro Santos-Jundiaí. Foi na pequena comunidade do outro lado da estrada, próximo ao Viaduto 31 de Março, que uma de suas tias viera de Recife para tentar uma vida nova em São Paulo. “Eu vim com meu filho visitar minha tia e ele não teve mais crises respiratórias. Foi por isso que decidi vir para cá”. Ela lembra quando tomou a decisão de mudar com o marido e Anderson, na época com 2 anos, para a comunidade conhecida por Vila dos Pescadores.

Quando Marly chegou no local não havia energia elétrica nem água encanada, muito menos ruas. “Eram só caminhos, quando chovia a maré enchia tudo. As crianças adoravam porque sabiam que iam andar de barco na frente de casa”. Foi aí que sua luta pela comunidade começou. “Meu pai dizia para sempre encarar de frente a situação, por pior que ela seja. Só assim você tira proveito das coisas ruins, encarando elas”.  

Ela conta que a Vila possuía apenas uma torneira na entrada dos assentamentos, e que diversas mães sofriam para coletar a água necessária para o funcionamento do lar. “Existiam muitas dificuldades. Eu e mais algumas mães nos juntamos e começamos a pensar em melhorias para nossos filhos”. Tinha início o Clube de Mães, grupo formado com ajuda da assistente social portuguesa dona Tereza, da Associação São Vicente de Paulo, e do padre da Paróquia São Judas, o padre Antônio, nome que identifica uma das principais ruas na comunidade.

“No Clube de Mães nós discutíamos nossas questões e íamos nos organizando como mulheres da Vila”, conta Marly. Mas além das dificuldades estruturais, o Clube enfrentou um obstáculo ainda mais persistente: o machismo. “Só os homens cuidavam e resolviam as demandas da comunidade, tudo passava por eles, e as lideranças eram todas representadas por homens”. As mulheres não concordavam com tal disposição, e iniciaram discussões com a parcela masculina dos moradores, entre eles seus próprios maridos. “Quando a gente se reunia com os homens, as cadeiras voavam: eles queriam uma coisa e a gente queria outra. Era aquela confusão”. Ela chegou a frequentar o Clube de Mães escondida do marido, que não via necessidade da participação da esposa nas discussões.

Junto com outras mães e moradores, ela participou da primeira Associação Comunitária da Vila dos Pescadores. “Para os maridos não brigarem muito, nós colocamos eles no conselho fiscal, onde só tinha homem”, conta Marly, que indicou o marido para presidente do conselho enquanto ela era vice-presidente da Associação. Era uma tentativa de harmonizar o casal, que a partir daí começou a caminhar para o divórcio, mesmo com o nascimento dos outros dois filhos, Alisson Benicio e Alan Rodrigo, hoje com 38 e 34 anos.

“Aqui eu vivi minhas melhores emoções, e as piores também”, diz Marly, enquanto prepara o café em sua casa entre os becos e vielas da Vila. Ela lembra de quando iniciou os estudos na Universidade Católica de Santos, a UNISANTOS, onde cursou dois anos de enfermagem e obstetrícia. “Eu era fissurada pelo assunto, a profissão tinha uma proposta de prevenção e cuidado com o próximo, não era essa coisa que o sistema transformou”.

Já divorciada, Marly se viu diante do desafio de conciliar a mensalidade da faculdade com a criação dos três filhos. Um deles, Alisson, chegou a frequentar as aulas ao lado da mãe, que consultava o filho durante as provas quando os conceitos lhe fugiam da memória.

Mesmo com a ajuda de professores e alguns colegas, as dificuldades financeiras apertaram. Abriu mão da formação universitária para se dedicar aos filhos, e se apaixonou por outra área de atuação, o ambientalismo. “A área ambiental é muito parecida com a da saúde, você deve zelar por algo pensando no futuro”.


Vila dos Pescadores, 1994 – foto Departamento de Imprensa Prefeitura Municipal de Cubatão.

Originada em meados dos anos 1960, a Vila foi criada quando um grupo de pescadores artesanais se instalou nos mangues do estuário do largo do Casqueiro em busca da renda originada da pesca. O local também abrigava um conjunto habitacional que Rede Ferroviária Federal disponibilizava aos seus empregados, como Fernando Matos, pai de Val Matos.

A partir da Associação Comunitária, da qual Marly presenciou boa parte das atuações ao longo dos anos, conta que a Vila dos Pescadores começou a receber atenção de representantes políticos, apesar de já contar com a participação direta dos moradores para realizar melhorias. “Era multirão para fazer qualquer coisa, tinha muita comunhão. A gente se juntava e fazia o que tinha que fazer”, lembra.

Em 2005, a Prefeitura de Cubatão, sob a gestão do ex-prefeito Clemont Castor, firmou parceria com o Banco Mundial para realizar o Programa Guará-Vermelho, que financiaria US$ 37 milhões para obras de saneamento e infraestrutura na Vila dos Pescadores. A Prefeitura cumpriu as primeiras etapas do projeto com um censo demográfico da Vila, realizado pelo Instituto de Pesquisas

A Tribuna (IPAT). O IPAT concluiu os estudos em 2006, e contabilizou uma população de 10.502 habitantes na Vila, em sua maioria jovens abaixo de 25 anos (55%) e mulheres (52%). Segundo Leandro Silva de Araújo, economista especializado em gestão pública pela Unifesp e morador da Vila dos Pescadores por 28 anos, a prefeitura não conseguiu cumprir os prazos estipulados pelo Banco Mundial e os financiamentos foram congelados.

Ao longo dos anos, a urbanização acompanhou o crescimento da população da Vila, que cresceu a partir das palafitas e construções da antiga Rede Ferroviária Federal. Marly, que mora em uma casa de madeira construída sob manguezal, conta que a manutenção das palafitas é necessária a cada dois anos para manter a integridade da residência. A cozinha de sua casa, por exemplo, é desnivelada em relação ao resto dos cômodos. Um sinal da superfície movediça do mangue, onde os rejeitos dos banheiros e pias desaguam devido à falta de saneamento básico das casas do entorno.

Seu filho mais velho, Anderson, também mora em palafitas na Vila dos Pescadores e utiliza pneus de caminhão ou trator para manter a sustentação de sua casa. “O vizinho fez e deu certo. A gente enche o pneu de entulho e empilha embaixo das madeiras”, conta. Ele mora em uma área considerada “nobre”, segundo Marly, nas palafitas e construções que ocuparam irregularmente as margens da ferrovia Santos-Jundiaí. Ali, ele vive com sua esposa e filha.

Marly conta que a ocupação da área se deu de forma organizada, o que é possível perceber pela disposição das residências. Nos becos estreitos, as casas variam entre tijolos e concretos e barracos de madeira, uma disposição pulsante que parece aglutinar uma enorme densidade de pessoas em um mesmo espaço, onde o silêncio é quase uma utopia. “A quietude só vem de madrugada e olhe lá”, brinca Marly.

Ela conta que a defesa do meio ambiente sempre existiu dentro dela, e foi aflorada por Sr. Inácio, antigo pescador respeitado da Vila, falecido em 2015, de quem ela se emociona ao lembrar. “Foi ele que impulsionou toda essa luta pelo meio ambiente, porque isso é a vida”, diz Marly, enquanto contém as lágrimas.

Neste mesmo ano, ao lado de pescadores e lideranças da Vila, ela criou o Instituto Socioambiental e Cultural da Vila dos Pescadores, o ISAC. Marly conta que o Instituto foi responsável por registrar a mortandade de nove toneladas de peixe no Estuário de Santos após o incêndio de oito dias na Ultracargo, em 2015.

Hoje, a luta do ISAC e dos moradores da Vila está voltada para uma obra da VLI, subsidiária da Vale, localizada a menos de 3 km no Rio Cubatão: a cava subaquática de Cubatão, um depósito de lixo químico retirado do Estuário de Santos.


900 mil m² de Mata Atlântica estão ameaçados no bairro Campo Grande, próximo à Vila de Paranapiacaba. O projeto ainda está em fase de licenciamento mas já levanta suspeitas e pressão de ambientalistas e movimentos da sociedade civil.

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